quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sermão dos Hebreus


Hebreus 13:8


"Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre. "

Estas palavras da epístola estão diretamente ligadas ao que imediatamente as precede. Embora não haja nenhuma partícula de conexão, pode existir apenas pouca, ou nenhuma dúvida, de que o autor deseja demonstrar a razão para a exortação que ele há pouco havia dirigido aos leitores:

"Lembrai-vos daqueles que vos lideraram, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver".

A exortação não deve ser entendida nesse sentido — de que os hebreus deveriam imitar seus antigos mestres aderindo à sua mesma fé — pela razão de que a doutrina cristã é, por todos os tempos, inalterável.

Naquele caso, o termo "Jesus Cristo" estaria representando o conteúdo do próprio Cristianismo, no sentido de doutrina a respeito de Cristo. Certamente, é muito mais natural a utilização do termo "Jesus Cristo" em seu sentido pessoal, o qual já havia ocorrido em outros pontos da epístola, e encontrar aqui, apropriadamente, a afirmação da imutabilidade, tanto do caráter, quanto da vida do Salvador.

Assim, a questão que se coloca, é qual a relação existente entre esta imutabilidade pessoal de Jesus Cristo e o dever do leitor de imitar a fé de seus antigos mestres, considerando sua maneira de viver.

Uma vez que esta relação não é aparente, alguns têm pensado ser necessária uma releitura dos versículos cinco e seis, possibilitando uma conexão com aquilo que o autor cita do Antigo Testamento: "Porque Ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmamos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei. Que me poderá fazer o homem?" Desta forma, este versículo adicionaria mais uma razão ao que foi dito: Nós podemos confiar que o Senhor não nos deixará ou abandonará; podemos considerá-lo nosso auxílio, não precisamos temer, uma vez que Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje, e o será para sempre.

Acerca da Vida

Mas isto também é menos plausível. Quando olhamos claramente as palavras imediatamente precedentes, percebemos que a conexão, conquanto não aparente a princípio, possui, não obstante, um caráter convincente.

O autor vinha falando, não meramente de maneira genérica a respeito da vida e da fé de seus antigos líderes, mas particularmente a respeito de suas vidas. E isto, não no sentido dos efeitos que aquelas vidas causariam a si mesmo em seu estado futuro, ou para outros em nosso estado presente; se refere à maneira que aquelas vidas atingiram o seu fim, a maneira a qual, na hora de sua morte, elas exibiram e triunfantemente mantiveram sua fé.

E muito provável que o fim da vida, nesta situação, refira-se ao fim do martírio. Os mestres, que pregaram a eles as palavras de Deus, selaram e coroaram sua profissão de fé em Jesus Cristo com o testemunho de seu sangue. Neste ponto, o autor trata o martírio não apenas como uma mera exibição de fé, mas como o ideal da carreira cristã.

As palavras utilizadas no original provam que o assunto da vida não se trata do término da vida biológica, mas do clímax da vida espiritual. Não se fala aqui do telos tes %oes, mas sim do ekbasis ten anastrophes. Este é a razão porque uma consideração a respeito do clímax da vida dos mestres no martírio pode apoiar, perante os leitores, a idéia de um modelo que poderá modelar a fé destes.

O que o autor quer dizer, imagino, é simplesmente isto: Contemplem o martírio daqueles a quem vocês testemunharam, o qual, é o cume daquilo que a fé pode alcançar; então, mantenham sua fé desta forma; desenvolvam sua caminhada desta maneira também, e quando a necessidade chegar, não será algo tão grande e difícil descansar suas vidas na causa de Cristo, mas algo natural, conseqüência de toda uma prévia conversaçã cristão, previamente inspirada pelo pensamento de abnegação, sofrimento e renúncia voluntária.

O Caráter Heróico da Fé

Há de maneira geral um esforço heróico nesta concepção de fé, da maneira que o autor a coloca, especialmente no capítulo onze da epístola. Neste ponto, o martírio também aparece como uma exibição suprema do espírito da fé. A totalidade do catálogo dos grandes exemplos de fé adentra na descrição daqueles que foram torturados, e que não aceitariam o seu livramento, que experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões; que foram apedrejados e serrados, os quais deram testemunho através de sua fé.

Desta forma, há concordância também com o que precede no capítulo 12, onde o autor exorta os cristãos hebreus a seguirem os passos daquela vasta nuvem de testemunhas, lembrando-os que eles ainda não haviam resistido até o sangue e exortando-os ao exercício da paciência em meio ao sofrimento, graça fundamental que ainda estava em falta.

Agora, isto se coloca como um motivo para o cultivo de tão heróica fé. Uma fé de tal maneira familiarizada com a idéia de dificuldade, que poderia, sem diminuir, enfrentar a crise do martírio como um assunto natural em seu curso. É com um pensamento de cultivo desta fé que o autor diz aos seus leitores: "Jesus Cristo é o mesmo hoje, ontem e para sempre." Isto significa, antes de tudo, que a mesma graça daqueles que pregaram a vocês as palavras de Deus, que não somente resignadamente, mas também de maneira alegre e triunfante entregaram suas vidas — esta mesma graça está a disposição de vocês.

Se, como alguns escritores modernos pensam, a epístola foi escrita para um grupo de cristãos da cidade de Roma, ela poderia ser uma referência ao martírio de Paulo, e possivelmente de Pedro (ao menos se a frase "que vos falaram as palavras de Deus" não seja entendida como a primeira pregação do evangelho).

Naquele caso, o lembrete surgiria com uma peculiar força e riqueza de associação, uma vez que significaria, de maneira resumida: lembrem-se de que o Cristo, em cuja força os grandes líderes apostólicos lutaram suas batalhas e ganharam suas coroas, continua o mesmo hoje, e que também pode animá-los a atingir uma igualmente gloriosa e triunfante bravura em suas batalhas contra o mundo.

Mas seja como for, mesmo que os seus antigos líderes não tenham sido tão ilustres quanto Pedro e Paulo, de qualquer forma, o apelo à imutabilidade de Cristo ainda teria grande força em sua conexão. E nos dá discernimento da condição espiritual dos cristãos hebreus para os quais a epístola é endereçada.

É evidente que após o entusiasmo inicial dos primeiros dias de profissão de fé cristã destes crentes, seguiu-se um período de reação, no qual o seu zelo começara a decair; sua coragem começara a minguar; sua esperança diminuíra, uma vez que eles haviam perdido a força da fé que os mantivera nos mesmos lugares altos do início de sua caminhada.

Por toda a epístola podemos sentir que foi isto que encheu o autor de preocupação, uma vez que ele possuía discernimento de que isto não era meramente um sintoma de um deplorável retrocesso em suas realizações cristãs, mas sim, por observar aí uma predição da apostasia.

Era verdade àquela época, assim como é hoje, que estritamente falando, não há como permanecer parado em nossa vida espiritual; precisamente pelo fato de que se trata aqui de vida — algo crescente, em desenvolvimento constante — e o seu progresso é algo de sua própria essência.

A suspensão deste processo denota que algo está errado, que um declínio se estabeleceu, o qual, não parado a tempo, pode ser fatal. Não existe Cristianismo imóvel. Somente a aparência externa de cristianismo que pode parecer imóvel — interiormente, as forças e processos estão sempre trabalhando, em uma, ou outra direção.

Quão apropriado, portanto, se torna para o autor, em seu estado de abatimento e depressão, desenrolar perante eles não somente os anais da história do Antigo Testamento, em cuja fé, brilha de forma total; não meramente demonstrar perante eles o exemplo de seus antigos mestres ou seus passados nobres, mas acima de tudo, apontar a Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sempre, uma vez que é a fé nEle que deveria encorajá-los sobre todo perigo de flutuação, trazendo suas almas oscilantes de volta à mesma força e coragem que já havia os pertencido outrora.

E talvez deva haver um elemento específico em seu desânimo espiritual que toma a referência à imutabilidade de Cristo ainda mais pertinente do que já tem sido indicado. E muito provável que eles tivessem sentido, de maneira profunda, a perda daqueles líderes que vieram antes deles e que foram, perante os leitores e o mundo, exemplos vivos do ideal cristão, comunicando a eles algo de sua própria fé, atraindo-os para a sua mesma coragem e alegria no crer.

Mas agora, estes pais em Cristo haviam partido, e eles foram forçados a depender tão somente de suas próprias fontes espirituais e, tomados pela desconfiança de si mesmos, não souberam para onde se voltar, em busca daquela inspiração e orientação das quais haviam se tomados tão dependentes.

Também por esta razão o autor os lembra que, apesar dos homens poderem ir e vir; que enquanto o suporte humano sobre o qual a fé muitas vezes se apoia é, por sua própria natureza, transitória, apesar disso tudo, Jesus Cristo permanece com sua igreja, através de todas as mudanças e vicissitudes do tempo, o mesmo ontem, hoje e eternamente, sempre acessível. Sendo, independente das condições, confiável, o próprio objeto de fé, a única fonte segura de confiança, uma vez que Ele mesmo é a eterna certeza sobre a qual a fé necessita repousar.

A Imutabilidade de Cristo

Esta é uma verdade sobre a qual podemos descansar tranquilamente, especialmente na presente época da história da igreja. E fácil em nossos dias sentir que o povo de Deus está, mais do que nunca, sem a presença de grandes líderes, como alguns conhecidos pelas gerações passadas, homens de Deus excepcionais, que pelo extraordinário poder de sua fé, e pelo poder de seus discursos, reuniam em sua volta o exército dos crentes, inspirando-os com nova coragem, e prevenindo o inimigo de obter vantagem sobre eles.

Contudo, caso não agrade a Deus a idéia de levantar tais homens no presente, ou se o agrada, em Sua sabedoria, tirá-los de nós, não deveríamos novamente ser tentados por isso à descrença e ao desânimo.

Devemos nos lembrar da verdade a qual o autor relembra aos seus leitores - que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre, que mesmo quando seu povo simples parecer mais destituído de liderança, os maiores líderes sempre estarão lá. Por nenhum momento ele deixa o leme, ou abandona, seja um simples crente, seja a igreja como um todo, à deriva, nas ondas do mundo.

Talvez isto nos explique o porquê do autor ter utilizado as duas preposições juntas, sem uma partícula de conexão. Primeiro: "Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver." E depois: "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente." A correta disposição de mente é, ao mesmo tempo, honrar e apreciar todos os dons e graças que Deus tem concedido a homens eminentes, a serviço da Igreja, para honrá-los, especialmente por intermédio da sua imitação, lançando a âncora da nossa fé no futuro do Reino de Deus no mundo na própria pessoa de Jesus Cristo: lembrando-se dos homens do passado, mas confiando somente nele, o qual tem o poder da vida eterna e permanece em um presente interminável.

A Imutabilidade do Filho de Deus

Tal então parece ser o significado primário das palavras, como determinado pela conexão. Mas não podemos nos esquecer que por trás destas palavras se encontra todo o ensino peculiar da epístola acerca do respeito à pessoa e obra de Cristo. E isto ocorre somente porque o autor supõe que seus leitores já tivessem assimilado a essência de sua explanação, esperando que seu apelo fosse persuasivo em relação aos seus destinatários.

Eles iriam entender que Jesus Cristo necessita de fato ser o mesmo ontem, hoje e para sempre porque eles se lembraram de quem Ele era, e em quais termos ele tinha sido descrito por meio de quase toda a epístola. Ele era o Filho de Deus, o esplendor da glória divina, a expressão exata do ser de Deus. A Ele o autor havia aplicado as palavras do Salmo 102: "Porém tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim. Os filhos dos teus servos continuarão, e a sua semente ficará firmada perante ti. (w. 26, 27).)

A Ele, então, pertence o atributo da imutabilidade, o qual é inerente à própria concepção de divindade. De fato, as várias formas de palavras — o mesmo ontem, hoje e para sempre — nos lembra de maneira vívida a sublime descrição que o livro de Apocalipse dá do próprio Deus como aquele que é, que era e que será, preenchendo com seu ser todas as categorias possíveis de tempo, uma vez que é etemo; e também nos relembra daquela não menos sublime descrição, a qual encontramos no mesmo livro, de ambos, Deus e Cristo, como sendo o Alfa e Omega, o primeiro e o último, o começo e o fim.

Por toda a epístola, Cristo pertence ao mundo celestial, no qual tudo carrega o caráter de imutável, permanente. A este respeito, o ensino da epístola permanece muito próximo daquele a nós ministrado pelo próprio Senhor, sobre si mesmo, no quarto evangelho, onde a ênfase continuadamente colocada neste fato — de que Jesus vem do alto, e não de baixo, e como conseqüência, ele se mantém livre de todos os relativismos, imperfeições e vicissitudes que necessariamente pertencem a tudo aquilo que possui uma natureza terrena. Cristo é a verdade, a realidade do Deus encarnado e, portanto, podemos sustentar com ele o mesmo relacionamento, endereçar a ele a mesma religiosidade que temos com o próprio Deus.

Neste momento, isto não é apenas uma mera especulação da epístola, tão pequena quanto é uma mera especulação do ensino de João sobre Deus. Quanto a nós, devemos observar, em segundo lugar, que toda a belíssima representação que o autor nos dá da obra redentora de Cristo, tanto como profeta quanto Sumo Sacerdote, é a conseqüência direta desta concepção de Cristo como uma pessoa eterna e divina. Se retirarmos isto, deixaremos de fora todo o pensamento preocupado com a figura de Cristo como o Salvador, não apenas porque seria impossível a nossa aproximação junto a Ele em espírito religioso, fossem seus atribuídos subtraídos dele, mas tanto mais por ser impossível a ele se aproximar de nós, nos cercando, üuminando e expiando para nós, nos trazendo de volta a Deus se Ele não houvesse enraizado a sua própria vida no solo da divindade e da eternidade.

Não há um só escrito em todo o Novo Testamento que ensine, de maneira tão enfática, a absoluta necessidade da natureza divina de Cristo para a obra de redenção como a epístola aos Hebreus. Ele é o clímax de toda a profecia, uma vez que é o Filho, que não fala a verdade de uma maneira limitada, ou em uma porção, como viera aos pais, pelos profetas, mas que a diz ecoando a voz do próprio Deus, e então, o fala a todos os tempos, pelo qual nós podemos dizer, não somente dele, mas de seu discurso — é o mesmo ontem, hoje e para sempre, o mesmo em autoridade e em frescor, o mesmo poder vital, como o que primeiro ressoou por toda a eternidade.

Um Sacerdócio Imutável

E o mesmo é igualmente a mais literal verdade de sua obra sacerdotal. No que também temos de reconhecer a impressão do que ele é. O conjunto completo da epístola é repleto deste pensamento. Não é necessário indicar mais do que as principais linhas pela qual esta profunda e esplêndida exposição do sacerdócio de Cristo se coloca. O tema central a partir do qual o autor começa e para o qual ele retoma é: ele é um sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque. E o que isso significa é-nos mostrado como um tipo. Quando Melquisedeque surge nas Escrituras como um sacerdote sem nenhuma derivação ancestral, ou sem antecessores no cargo, mas somente mediante a sua própria personalidade real, isto ocorre somente pela inspiração, feito como o Filho de Deus, o qual ele deveria prefigurar.

Cristo qualifica o seu sacerdócio a partir da sua natureza divina, assim como por sua natureza humana, uma vez que não possuindo começo de dias, e tampouco fim de vida, ele continua a ser um sacerdote para sempre. Ele tem o seu sacerdócio imutável, pois o poder de uma vida eterna existe nele mesmo. Ele transcende e revoga, por seu rninistério, o sacerdócio levítico, porque ele, a pessoa imortal, assumiu todas as suas funções e prerrogativas em um sentido infinitamente superior. Através do Espírito eterno, ele ofereceu-se sem defeito a Deus e, por isso, aperfeiçoou para sempre, por um só sacrifício, todos aqueles que são santificados. Por último, sua eternidade e sacerdócio são vistos mais estreitamente unidos nisto: no fato de que a parte principal da quitação das suas funções sacerdotais ocorre, de acordo com a nossa epístola, no céu, onde ele ministra no seu estado glorificado.

Os dois são tão inseparáveis que o autor simplesmente diz: "Se estivesse na Terra, ele não seria um sacerdote de forma alguma". Mas estando no céu, ele é o sacerdote, e seu estado sacerdotal partilha da imutabilidade que é a lei suprema deste mundo celestial. Ele é um sacerdote sobre o seu trono (para usar uma expressão Antigo Testamento) e seu trono, como vimos, permanece eternamente, desde que se encontra à destra do trono do próprio Deus. Mesmo quando o seu trabalho sacerdotal, no sentido específico da aplicação da sua redenção, tiver cessado, quando já não será necessário para ele fazer intercessão ou invocar o seu mérito para nós, uma vez que o pecado, e todas as suas conseqüências, já tiver sido removido - mesmo assim ele continuará a ser o eterno Sumo Sacerdote da humanidade, oferecendo a Deus, em união, a adoração e o louvor da raça redimida da qual ele é o cabeça.

Um Salvador Compassivo

É necessário manter isto em mente porque muitas vezes enfatizamos o outro lado em demasia. E inquestionável que sua experiência terrena como um fraco e limitado homem de dores era necessária para qualificá-lo para seu ofício. Sem isto, ele não poderia ter o conhecimento experimental de nossas tentações e a compaixão, a segurança da qual nos é tão preciosa e consoladora nos tempos de provações e aflições. Mas não nos esqueçamos, irmãos, que está muito longe da idéia do autor entender a sua compassividade como que trabalhando por nós de uma forma meramente subjetiva, assim como a compaixão de uma pessoa que nos ajuda, apesar dela não poder fazer nada mais de que expressar um sentimento de companheirismo em relação às nossas enfermidades. Não! A simpatia de Cristo trabalha junto a nós com todas as suas infinitas fontes, as quais são colocadas a nossa disposição pela sua divina natureza e pela sua humanidade gloriosa.

É a compaixão de uma pessoa que é a mesma ontem, hoje e para sempre; de alguém que se lembra, de uma maneira que somente uma natureza humana absolutamente perfeita poderia se lembrar, de tudo aquilo pelo qual passou na Terra, enquanto orava e suplicava com copioso pranto e lágrimas. E a compaixão de alguém que não diferencia o sentir por nós e agir sobre nós, tendo-os como uma única coisa. De alguém que tem acesso a cada momento, a cada situação que o crente possa se encontrar, por maior a angústia ou a perplexidade que ela possa trazer, assim como a qualquer recôndito de nosso coração, do medo mais secreto, a mais silenciosa tristeza, os quais não podemos compartilhar com mais ninguém.

E depois, é a compaixão daquele que nunca se cansará de nossas queixas, uma vez que nele há uma fonte inesgotável de misericórdia, a qual é adequada para o consolo dos crentes de todas as eras, e é livremente derramada hoje assim como foi na era dos cristãos hebreus, pela simples razão de que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre, imutável nisto assim como em tudo o mais. E somente pela união do divino e do humano, dos aspectos temporais e eternos da atividade de Cristo por nós é que poderemos compreender a riqueza e o consolo que a leitura desta maravilhosa epístola se destina a nos fornecer.

Avivamentos Velho e Novo Testamento




A palavra avivamento significa tornar a ter vida, ou seja, voltar a viver, reanimar. Desta forma é preciso que algo que esteja morto ou próximo a morte, seja reanimado. Nós precisamos disso, voltar ao primeiro amor, sempre que nos distanciamos de Deus, o Espírito Santo nos induz ao retorno, principalmente através da pregação bíblica, dessa forma podemos sentir a presença mística (não pense que eu estou falando de esoterismo, não me entenda mal) de Deus perto ou dentro de nós.

Se o avivamento está realmente acontecendo podemos verificar biblicamente, isto por que, de tempos em tempos Deus toma a iniciativa e atrai novamente o seu povo para Ele, a Bíblia e a história nos dá uma pista de como acontece o verdadeiro avivamento, então vejamos

Avivamento através de Moisés

Em se tratando de Moisés não podemos usar o termo avivamento no sentido estrito da palavra, mas não poderia deixar de mencioná-lo pois através dele Deus começou a forjar sua autocracia.

O povo de Israel embora reconhecido por Deus como seu povo, não sabia nada sobre o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, os quatrocentos anos no Egito lhes fizeram esquecer quem era El Shaday. Deus, para se fazer conhecido de seu povo, deu-lhes a Lei escrita, através da Lei, que deveria ser lida de dia e de noite, Israel conheceria o seu Senhor. Através da Lei Israel passaria a ter vida em Deus. Isso mudou completamente a relação entre os hebreus e Jeová. Agora havia uma regra escrita, não mais tradição oral, assim Deus registrava a sua vontade a nação.

Avivamento através de Josué

No livro de Josué nos capítulos 23 e 24, nós temos as tribos mais ou menos encaminhadas, a maior parte dos inimigos já havia sido destruída, e as tribos partem para tomar posse da parte que lhes cabia na herança, temendo que a nação viesse a se esquecer do Senhor, o substituto de Moisés, no final de sua vida, reúne a nação e traz um reascender levando o povo a se lembrar do que Deus fez e reafirmando a Lei, o que resultou em uma renovação da Aliança por parte de Israel.

Avivamento através de Josias (2º Reis 22 e 23)

Com o passar dos anos vieram os reis, Israel se dividiu em duas nações a nação do Norte manteve o nome de Israel e a nação do Sul com o nome Judá. Por se afastar irremediavelmente de Deus a nação do Norte foi-se levada pelos Assírios, que dizimaram a nação. O reino do Sul também se afastou, mas a administração de alguns Reis piedosos e tementes fizeram com que o castigo divino fosse protelado.

Um desses reis foi Josias, filho de um mal rei, Josias foi coroado muito jovem, mas logo começou uma reforma na nação. Deu-se início a uma reforma no Templo, então algo surpreendente aconteceu, o livro da Lei é encontrado (2º Reis 22:8). O livro chega até as mãos de Josias que rasga suas vestes em desespero. O rei, e a nação estavam sobre grande perigo, as Escrituras haviam sido negligenciadas e a morte pairava sobre a nação. O Senhor é consultado a respeito disso, mas Deus tem boa vontade para com o rei que se humilhara diante Dele, o castigo não virá logo, o rei pode descansar em paz. Mas a despeito do livramento que recebera o rei não se contem: a nação precisa ouvir o que está escrito no Livro do Concerto, e é isso que acontece. Todos os moradores de Jerusalém são reunidos no templo, e as Escrituras são lidas diante do povo. O Resultado foi um verdadeiro avivamento na fé judaica: os ídolos foram destruídos, os altares profanos foram derrubados, os feiticeiros caçados e extirpados, as casas de prostituição ritualística foram derrubadas, os sepulcros dos falsos profetas foram abertos e seus ossos queimados (uma grande ofensa para o judeu) e o pacto entre os judeus e Iahweh é renovado.

Avivamento através de Esdras (Neemias 8 e 9)

Após a morte de Josias, Judá tornou a se afastar de Deus, o que resultou no cativeiro babilônico. Com o passar do tempo determinado por Deus os judeus receberam permissão para retornar à Jerusalém. Mas após mais de 70 anos o povo de Judá não se lembrava da Lei. E nem mesmo conseguiam entender o que nela estava escrito, o hebreu já não era tão bem compreendido (as pessoas agora falavam e liam em aramaico, um idioma semelhante ao hebraico). Para superar essa dificuldade, já que a tradução do Antigo Testamento para outros idiomas não era visto como bons olhos (apesar de haver alguns textos escritos em aramaico), Esdras, a pedido dos filhos de Israel, leu o Livro do Senhor e os seus ajudantes iam explicando o sentido do texto de tal forma que todos podiam entender (cap. 8:8).

Isso abalou a estruturas dos israelitas, a leitura da Lei, por si só acarretou um dos maiores avivamentos da nação. As pessoas choraram pelos seus pecados, houve confissões e arrependimentos de pecados, houve adoração em gratidão a Deus. A nação como um todo voltou sua atenção para a vontade escrita de Deus. A aliança foi renovada mais uma vez.

O maior dos avivamentos: o Advento do Messias          


O tempo se passou, e mais uma vez a nação de Israel se encontrava distante do Criador, mas chegada a Plenitude dos Tempos (Gl.4:4) Deus enviou a própria Palavra aos homens. Bom eu não preciso dizer que uma vez que Cristo era a própria Palavra, ele cumpriu em sua vida terrena toda a Lei, e revelou as “coisas que estavam ocultas desde a criação do mundo” (Mateus 13:35). Em Cristo Jesus o mundo teve vida, é exatamente isso que João fala em sua primeira epístola: “O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1ª João 1:1). Em Jesus a humanidade passou a ter vida, houve uma mudança estrutural na história, o que resultou no maior de todos os avivamentos, pois em Cristo o homem foi reconciliado para com Deus. Jesus explicou que todo o Antigo Testamento se cumpria Nele: “E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24:27).

Em Jesus, Deus estabeleceu uma nova aliança, que alcança todos os homens. Eu poderia passar páginas e mais páginas escrevendo sobre o que Jesus realizou, tamanha a profundidade da obra de redenção. Na verdade a vinda de Cristo, foi tão marcante que podemos dizer que em toda a História não houve algo tão marcante. Tudo mais que ocorreu no Novo Testamento foi em decorrência da vinda do Messias, inclusive a descida do Espírito Santo, registrado no capítulo 2 de Atos, pois com Cristo “o povo que estava assentado em trevas viu uma grande luz; e aos que estavam assentados na região e sombra da morte a luz raiou.” (Mateus 4:16). João fala que se tudo o que Jesus fez fosse relatado não haveriam livros suficientes para acomodá-los (João 21:25).

Avivamento sob os Apóstolos

Com a disseminação do Evangelho vários grupos tentaram, em todo o período apostólico, perverter as Boas Notícias de Salvação: O judeus queriam dar um jeitinho para harmonizar a Lei e a Graça (como se isso fosse possível ser Salvo pela Graça e ainda cumprir a Lei); os gnósticos queriam perverter a mensagem evangélica diluindo-a em sua filosofia; Isso tudo regado com os aproveitadores (é já existiam naquela época) que volte-e-meia tentavam se beneficiar com a Igreja, é o caso de Simão (Atos 8:18) e Diótrefes (3ª João 9) a resposta dos apóstolos foi estabelecer aquilo que Cristo havia ensinado. As epístolas nada mais são do que a explicação dos Ensinos de Cristo e a aplicação destes na vida do crente. A firmeza da “Palavra é o Escudo que nos protege do erro” como disse Calvino, é a Espada do Espírito como disse o Apóstolo Paulo.

Reforma Protestante [1]

Com o passar do tempo os cristãos se afastaram dos princípios neo-testamentários, os cristão não tinham acesso a Bíblia, e por conta disso uma casta sacerdotal corrupta, dominava a sociedade ao seu bel prazer. As palavras dos clérigos tinha peso de vida e morte. Por desconhecer as Verdades que Libertam os chamados “cristãos” jaziam em seus pecados (algo muito parecido com os dias atuais). Isso perdurou até que alguns homens entenderam que era necessário um retorno para as Escrituras, o homem precisava ter acesso a Palavra de Deus, como era difícil ter acesso a Bíblia, e impossível no idioma do povo, estes homens começaram a traduzi-la, outros as lia para o povo, e lhes explicava isso causou um efervescer das idéias, o homem comum enfim pôde ter conhecer a Deus e assim se achegar a Ele, sem nenhum outro intermediário além de Cristo. Esse retorno a Palavra fez ruir o então inabalável império das trevas, e o homem se viu livre para entender a maravilhosa Graça de Deus. O que Lutero, Calvino, Ulrico Zuínglio, John Knox, Teodoro de Beza, Erasmo de Roterdã e outros fizeram foi entregar novamente a Palavra aos homens, estes reformadores da igreja estavam apenas imitando o exemplo do próprio Salvador, que simplesmente pregava de maneira fiel às Escrituras, trazendo um grande despertar aos cristãos de sua época e, inclusive, dos dias hodiernos.

O avivamento do século XVIII [2]

Para falar sobre este grande último avivamento eu gostaria de usar como base o relato de J.C. Ryle. Segundo ele, a condição moral deplorável em que se encontra o nosso país quase dispensa qualquer comentário. A impiedade e a perversão dos homens, que cada dia mais têm trocado a verdade de Deus pela mentira, mudando a glória do Deus incorruptível, adorando e servindo a criatura em vez do Criador, têm suscitado a ira de Deus sobre Portugal. Por isso, Deus tem entregue o nosso povo à imundície, pela concupiscência dos seus próprios corações. E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem toda a espécie de coisas inconvenientes e aprovarem os que assim procedem. A Inglaterra da primeira metade do século XVIII caracterizava-se pela impiedade, corrupção e imoralidade. As trevas espirituais assolavam todas as camadas sociais daquele país. A terra de muitos reformadores e dos puritanos decaiu tanto, que a corrupção, a desonestidade e o desgoverno nos altos postos era a regra, e a pureza, a exceção.

A Igreja da Inglaterra, na sua grande maioria, jazia inerte, sem nenhum vigor. Os sermões, meros ensaios morais, nada podiam fazer no sentido de despertar, converter e salvar os pecadores. As importantes verdades pelas quais os pré-reformadores tinham ido para a fogueira, e muitos dos puritanos, para a prisão, pareciam ter sido totalmente esquecidas e colocadas na prateleira. Um conhecido advogado cristão da época afirmou que visitou todas as igrejas mais importantes de Londres, e que não ouviu um único discurso que apresentasse mais Cristianismo do que os escritos de Cícero, e que lhe seria impossível descobrir, do que ouvira, se o pregador era um seguidor de Confúcio, de Maomé ou de Cristo! Os bispos e arcebispos da época, na sua grande maioria, eram homens mundanos; tão mundanos que houve casos em que o próprio rei teve de intervir para restringir a impiedade deles. Para se ter uma ideia da situação, conta-se que, quando a pregação de Whitefield começou a incomodar o clero, foi sugerido com seriedade pelo próprio clero que a melhor maneira de dar um fim à sua influência era torná-lo bispo. Quanto ao clero paroquial, Ryle afirma que os seus sermões eram tão indizível e indescritivelmente ruins, que é reconfortante lembrar que eram geralmente pregados a bancos vazios.

Nos Estados Unidos a situação não era diferente. No começo do século 18, era visível nas 13 colônias — que em breve seriam conhecidas como Estados Unidos — o declínio da fé evangélica, provocado pela influência do processo colonizador, com seu subseqüente aumento populacional, sucessão de guerras brutais e declínio da espiritualidade dos ministros.

Isso tudo mudou quando George Whitefield, John Wesley, William Grimshaw, William Romaine, Daniel Rowlands, John Berridge, Henry Venn, Samuel Walker, James Harvey, Augustus Toplady e John Fletcher começaram a pregar na Inglaterra e Jonathan Edwards nos EUA, estes foram divinamente inspirados, e trouxeram de volta um efervescer da Fé. Eles não pregaram modismos, não dominaram as pessoas ao seu bel prazer, nunca fizeram um “Ato Profético, mas todo o conselho de Deus, especialmente doutrinas como a suficiência e a supremacia das Escrituras, a total corrupção da natureza humana, a morte expiatória de Cristo na cruz, a justificação pela graça mediante a fé, a necessidade universal de conversão e de uma nova criação pelo Espírito Santo, a união inseparável da verdadeira fé com a santidade pessoal, o ódio eterno de Deus pelo pecado e o seu amor pelos pecadores. Eles não hesitavam em proclamar clara e diretamente às pessoas que elas estavam mortas e precisavam viver; que se encontravam culpadas, perdidas, desamparadas, desesperadas e em perigo iminente de destruição eterna, somente a Palavra bastava. Como disse J. I. Packer, "por toda a sua vida, Edwards alimentou a alma com a Bíblia; por toda a sua vida, alimentou o rebanho com a Bíblia". Isso mudou o mundo de então.

Esse grande despertar se manteve por quase duzentos anos, e quando parecia que iria se arrefecer, uma nova chama acendia, no século XIX Moody nos Estados Unidos e Spurgeon na Inglaterra mantiveram a chama acesa.

Conclusão

É muito interessante vermos em Israel que, apesar da renovação dos pactos, volte e meia a nação se afastava do Deus vivo. Isso perdurou durante toda o Antigo Pacto e não é diferente no Novo, Deus através das séculos vem atraindo providencialmente seu povo de volta para ele.

Em todos esses avivamentos duas coisas são padrões:


1ª Deus sempre tomou a iniciativa, nunca partiu do homem a busca, sempre foi Deus que atraiu o homem. Deus sempre foi em busca do perdido.
2ª Em todos os casos a Palavra de Deus foi o combustível usado por Deus para acender a chama no coração do homem.


Desta forma se não está havendo um retorno a Palavra de Deus, se as pessoas não estão buscando Deus no local correto, ou seja, em sua Palavra, então todo este barulho, todo este “suposto avivamento” não passa de falso fogo, de intenso barulho. E como diz um amigo meu: “lata vazia faz mais barulho e é levado por qualquer vento de doutrina”. Não existe avivamento. O homem hoje está tentando tomar a iniciativa no buscar a Deus, através de métodos não bíblicos, isso não tem resultado em ação do Espírito Santo. Mas, ao meditar na conversa que tive com minha colega (início do artigo), eu conclui que realmente Deus está lançando os fundamentos de um avivamento, o Senhor Jesus silenciosamente está atraindo novamente um pequeno, mas crescente, grupo de pessoas até a sua Palavra. Isto resultara em uma nova Reforma (ou avivamento se preferirem), Deus fará (sempre partiu Dele). O avivamento planejado por Deus, não tem nada a ver com os lenços suados, com as sementes, com as carteiras de trabalhos sobre uma mesinha, com os paletós mágicos, com os gritos, pulos, danças, transes, unções de risos, de leões, de colas, de sopros, de quedas. O avivamento que Deus esta trazendo tem a ver com Sua Palavra, com seu Evangelho Santo, outra marca do avivamento é que somente um é honrado no processo e este alguém não é o profeta, nem o apóstolo, nem o bispo, nem pastor algum, mas somente Jesus.

Se você caro leitor não está retornando a Bíblia, as doutrinas basilares, aos Estudos Bíblicos, lamento lhe informar, mas vocês está longe de Deus. Precisa ser Avivado.

A Jesus Cristo meu Senhor, seja a Glória para Sempre!!!